quarta-feira, 8 de abril de 2015

À conversa com Henrik Chaim Goldschmidt



“Prometam-me que não se vão esconder quando tocam, a música é felicidade e a felicidade não se deve esconder, mas partilhar


Durante os dias 30 e 31 de março e 1 de abril de 2015, na Escola Profissional de Música de Viana do Castelo (EPMVC), decorreu um Curso de Aperfeiçoamento Artístico (Masterclass) de oboé. O oboísta Henrik Chaim Goldschmidt deu a seguinte entrevista ao “Folha da Música”:



1. Quando decidiu seguir uma carreira como oboísta profissional?

A minha mãe era música e toda a minha família sabia música e, quando eu era ainda muito novo, percebi que seguir uma carreira musical poderia ser algo de muito positivo para mim. Eu também não gostava de trabalhar (risos) e por isso achei que ser músico me daria uma boa vida (risos). Na verdade, gostava da ideia de acordar de manhã e poder tocar e por isso, quando tinha apenas 15 anos, fiz uma audição para entrar numa escola superior de música [Det Fynske Musikkonservatorium], onde comecei a estudar com 16 anos. Aos 19 anos consegui o meu primeiro trabalho numa pequena orquestra sinfónica dinamarquesa [Odense Symfoniorkester]. Comecei muito cedo e nunca trabalhei, apenas toquei música! (risos)



2. Lemos na sua biografia que em 2003 fundou a Orquestra da Paz no Médio Oriente que reúne músicos judeus e árabes para difundir uma importante mensagem. Que mensagem é essa?

Eu sou judeu. Durante toda a minha vida senti na pele a guerra entre Israel e a Palestina. A guerra e as mortes geram muita tristeza e eu vi na música uma oportunidade: apercebi-me que a música faz amizades. Assim, procurei e ainda hoje procuro músicos árabes com quem tocar, fazemos música juntos e depois disso deixamos de nos ver como inimigos, passamos a ser amigos. 
Foi também essa a razão pela qual comecei a ensinar crianças palestinianas e israelitas a cantar. Ao cantarem juntas elas acabam por se tornar amigas. Ensino-lhes que é muito melhor estarmos juntos a fazer música do que guerrearmo-nos. 
Este passo pode não fazer a diferença no mundo, mas faz a diferença nos seus e no meu pequeno mundo. 
Antes de começar este projeto não tinha amigos árabes e agora tenho: comemos juntos, tocamos juntos, conhecemos as famílias uns dos outros. A música pode ajudar a construir a paz.  



3. Que tipo de repertório poderá ajudar a passar essa mensagem?

Através desse projeto aprendi a tocar música árabe e ensinei música judaica. Cantamos em Hebraico e em Árabe, e assim aprendemos sobre a cultura de cada povo e aprendemos a respeitá-las porque percebemos que nenhuma cultura é superior à outra. 
As mães dos israelitas e as mães dos palestinianos ficam igualmente tristes por verem os seus filhos partirem para a guerra. Eu sou pai e não quero que os meus filhos tenham de fazer a guerra, prefiro que façam amigos em vez de inimigos.   



4. Algum dos últimos acontecimentos na Dinamarca relacionados com o ódio que existe entre pessoas de diferentes religiões o tocou particularmente?

Sim, muito. Os Judeus são odiados por algumas pessoas de diferentes religiões e, este ano, na Sinagoga que eu frequento, ao celebrarmos um B'nai Mitzvá (um evento de comemoração da entrada dos jovens judeus - rapazes e raparigas - na comunidade, por atingirem a maturidade) tudo terminou de forma trágica. 
Depois da cerimónia, todos os convidados vão comer e dançar e há bandas a tocar. Eu estava numa festa dessas e um amigo meu estava lá fora de guarda, porque sempre sabemos que como temos muitos inimigos algo pode correr mal e há sempre quem fique a vigiar as entradas. Um árabe apareceu e alvejou-o… (silêncio) Desculpem mas custa-me muito falar sobre isto porque era muito meu amigo. Ele morreu, não porque era um criminoso, mas porque era judeu. 
Não parei de tocar, toquei inclusivamente no seu funeral. Depois de passar por alguns momentos de revolta interior decidi que a única forma de ajudar a minha comunidade seria organizando uma cerimónia em sua homenagem com crianças muçulmanas, cristãs e judaicas a cantarem em conjunto para mostrar à sociedade que não queremos guerra, não queremos que isto continue a acontecer. O meu grande objetivo é usar a Música, a Arte, para fazer o bem. 
Eu penso que os músicos devem tocar mesmo nos piores momentos, porque a vida também é feita de momentos tristes e a música pode ser muito importante na tristeza. 



 


5. Tem um tipo de público favorito? Porquê?

O meu público preferido são as crianças. Toco muitos concertos para crianças de diferentes religiões: muçulmanos, cristãos, judeus, entre outras. Por vezes, nesses concertos, consigo que o público cante em uníssono e que todas as crianças partilhem o mesmo sentimento. 
Não compreendo como ainda hoje há quem diga que não gosta das pessoas desta ou daquela religião, deste ou daquele país, sem efetivamente conhecerem pessoas dessa religião ou desse país. Por isso, reúno as crianças e tento passar-lhes a mensagem de que todos podemos ser boas ou más pessoas, mas não por causa da nossa religião ou nacionalidade. Ensino-lhes que devemos ser abertos a descobrir os outros, a ter amigos de todas as religiões e nacionalidades e acredito que estas crianças, quando crescerem, poderão ser melhores do que as gerações anteriores, porque são mais abertas à diferença. Vocês [jovens oboístas da EPMVC] poderão criar um mundo melhor.  


  
6. Há algum segredo para fazer uma boa palheta? Já usou palhetas de plástico? Tem alguma preferência? 

Já experimentei palhetas de plástico, mas não gosto delas porque não me permitem obter um som bonito. São mais fáceis de tocar para quem está a começar, mas eu acho que é muito melhor aprender a tocar com uma palheta de madeira que seja confortável.
Fiquei muito contente por ver que mesmo as duas alunas mais novas, que só tocam há cerca de cinco meses, não estão a usar palhetas de plástico e já estão a ter um som bonito, graças a terem bons professores e a tocarem com boas palhetas, o que também é importante. 
Eu penso que o segredo para ter uma boa palheta é não a fazer demasiado resistente. Temos de ter uma palheta com que se consiga um som forte e piano, uma palheta que responda ao que queremos transmitir e que vibre. O segredo é não as fazermos demasiado resistentes para que o som venha do nosso corpo [das ressonâncias que criamos com o corpo]. O som deve vir daquilo que imaginamos, do que temos em mente e do nosso corpo. Um bom músico e uma boa palheta fazem um bom oboísta.




7. Que conselho gostaria de deixar aos alunos desta Escola que ambicionam começar uma carreira musical?

O meu conselho é muito simples e provavelmente os alunos da Escola não o vão querer ouvir: devem praticar muito. Não se pode ser músico profissional sem trabalhar muito. Eu adoro ensaiar. Pego no meu oboé e sinto prazer em tocar. Estou sempre a tentar tornar-me um músico melhor. Todas as manhãs toco em todas as escalas: 12 maiores e 12 menores. Toco-as devagar, legato, staccato. Depois toco as músicas que naquele momento me ocorrem. 
Quando quero aprender uma peça, estudo-a e depois fecho a partitura e tento tocar de memória. Às vezes, trabalho muitas horas para decorar uma única peça. Mas se queremos ser músicos devemos gostar de tocar, devemos sentir prazer em tocar e com o oboé ainda é mais difícil porque nem sempre soa como nós queremos e a única forma de o fazermos soar bem é praticando. Quando gostamos do que fazemos torna-se fantástico ser músico. 
O meu segundo conselho é terem um reportório próprio. Como são portugueses, aprendam músicas portuguesas, por exemplo. Assim estarão a criar a vossa própria identidade enquanto músicos. Eu sou um músico judeu e toco música judaica e canto canções em Hebraico. Como vivo na Dinamarca, também aprendi a tocar música dinamarquesa. Se me convidam para tocar música dinamarquesa eu aceito: ao piano, com o oboé ou o clarinete, ou mesmo cantando, toco para idosos, para crianças.
Eu sou um músico de formação erudita que tem a sorte de tocar numa orquestra sinfónica, mas gosto de tocar todo o tipo de música. Eu toco em festas para as pessoas dançarem e em casamentos. Sou muito aberto, não toco apenas um tipo de música e penso que um verdadeiro músico deve ser assim, deve diversificar: aprender piano, percussão, aprender a cantar. 
Sempre que me junto com outros músicos é isso que faço. Tirar prazer da música e de estar com outros músicos é uma ótima forma de viver. Prometam-me que não se vão esconder quando tocam, a música é felicidade e a felicidade não se deve esconder, mas partilhar. 




Relembra-se que Henrik Chaim Goldschmidt é oboísta principal da Orquestra Real da Dinamarca, em Copenhaga. Estudou na Karajan Accademy em Berlin e tem tocado a solo em algumas das mais prestigiadas orquestras do mundo, entre as quais a Filarmónica de Berlim. 
As suas gravações para a EMI enquanto músico solista são reconhecidas internacionalmente, e Goldschmidt recebeu um Grammy em 1993, pela melhor gravação de música erudita. O oboísta tem conquistado vários prémios e distinções pelo seu trabalho de excelência e por unir povos desavindos através da Arte. Segundo o próprio: “A Música é um lugar de encontro e uma plataforma a partir da qual se pode criar amizade e tolerância”. É membro honorário da União Musical Dinamarquesa.



Em 2003, Goldschmidt fundou a Orquestra da Paz no Médio Oriente, onde músicos de renome internacional se reúnem para tocar música de cariz tradicional do Médio Oriente.
Enquanto compositor, Goldschmidt renovou a tradição da música judaica, escrevendo para a sua orquestra, para o cinema e para o teatro.
Mónica Pires (2CISP), Joana Nina Martins e Bárbara Gomes (3CISP), alunas de oboé da EPMVC

segunda-feira, 2 de março de 2015

Vidas com Música - Carlos Tony Gomes



Durante os dias 16, 17 e 18 de fevereiro de 2015, na Escola Profissional de Música de Viana do Castelo, decorreram Cursos de Aperfeiçoamento Artístico (Masterclasses) dos seguintes instrumentos: Contrabaixo (António Augusto Aguiar), Flauta (Jacques Zoon), Guitarra (Pedro Rodrigues), Saxofone (Fernando Ramos), Viola-d’arco (Paul Wakabayashi), Violino (Zofia Kuberska-Woycicka e Pedro Rocha) e Violoncelo (Carlos Tony Gomes).

O violoncelista Carlos Tony Gomes deu a seguinte entrevista ao “Folha da Música”:





1. Como descreveria o seu regresso à Escola Profissional de Música de Viana do Castelo (EPMVC) onde despontou como músico? Que sentimentos/emoções viveu nestes dias?

Vivi um misto de emoções ao regressar à EPMVC. Os dias que antecederam a minha chegada foram vividos com alguma ansiedade e nervosismo, por ter em mente a importância que a instituição, os funcionários e seus professores tiveram no meu percurso. Imaginar o meu primeiro professor (que me “suportou” durante seis anos (riso!)) presente na minha masterclass, foi sem dúvida um grande anseio. A minha preocupação principal foi corresponder às expectativas que ele e os alunos estavam a depositar em mim.
Contudo, não havia razão para nervosismos porque fui acolhido muito calorosamente e a masterclass decorreu de forma agradável e entusiasta. Foram três dias de intenso trabalho, onde pude conhecer alunos muito interessantes e interessados, com momentos divertidos à mistura.





Para mim, foram três dias fantásticos, que me permitiram adquirir novas ferramentas enquanto músico e professor. Espero ter superado as expectativas dos alunos, ter ajudado nas suas dificuldades e sobretudo ter transmitido um pouco do entusiasmo com que vivo diariamente, através do violoncelo e da música em toda a sua plenitude.


2. O que significou para si e para o seu percurso profissional, a passagem pela  EPMVC?

Teve um enorme significado. Foi na EPMVC que decidi fazer carreira como violoncelista. Olhando em retrospetiva, foram seis anos intensos, com muitos altos e baixos, inserido numa comunidade fantástica que ajudou a construir e a traçar o meu caminho e o meu “eu” como músico e como pessoa.





A EPMVC proporcionou-me uma juventude muito sui generis, pela panóplia de concertos e eventos em que participei, contactando com diferentes públicos e reações distintas, com várias viagens pelo distrito e experiências musicais de várias ordens. Enfim, o trabalho necessário para evoluir e conseguir o reconhecimento dos pares, os melhores resultados e a excelente sensação de dever cumprido. 





A EPMVC foi para mim e para muitos outros uma ótima fonte de conhecimento, experiência e preparação para a vida! 
Gostaria de evidenciar que, numa cidade como Viana do Castelo, onde não existe significativa produção cultural de cariz erudito, considero que a EPMVC teve e continua a ter um papel importantíssimo, promovendo a vida cultural da cidade. A Escola proporciona aos Vianenses a vivência da cultura erudita (a música “clássica”), procurando incutir nas pessoas, nos seus gostos pessoais e nos seus hábitos culturais este género de música, que não experienciariam se a EPMVC não “fosse até eles”. 

3. Que diferenças encontrou, comparativamente ao período em que aqui estudou, na forma de trabalhar, nesta nova geração de alunos?

Penso que na sua essência, a Escola mantém a mesma forma de lecionar, com todo o rigor e profissionalismo por parte da Administração e por parte dos professores, o que é um ótimo sinal para os alunos e para o seu futuro musical.
Numa forma geral, no que diz respeito aos alunos, penso que temos gerações excecionais, muito inteligentes e capazes, mas apresentando uma enorme falta de vontade de trabalhar e até alguma apatia. Trata-se de algo estranho e contraditório, pois atualmente eles têm maior facilidade no acesso à informação e ao conhecimento que necessitam, presencialmente (nas escolas) e à distância (através das novas tecnologias da informação). Acho que não estão a aproveitar devidamente as oportunidades daí resultantes.
Contudo, há sempre aqueles alunos que se destacam, que “puxam” e “arrastam” os colegas menos motivados, o que é muito importante para cada classe e eu vi um pouco dessa estrutura nesta masterclass.

4. Tendo em conta a sua abrangente e diversa experiência musical, que tipo de reportório prefere tocar? 

Isso acaba por ser pergunta difícil de responder. Como já referi anteriormente, sinto paixão pela música em toda a sua extensão.
As minhas experiências passam pela música erudita, variando entre repertório para violoncelo e orquestra, mas também, num panorama diferente, mas não menos importante, a música que vivencio com Rodrigo Leão, com quem tenho o privilégio de partilhar os palcos do mundo e com tenho oportunidade de trabalhar como instrumentista e orquestrador.





Tenho uma enorme dificuldade em decidir onde inserir este estilo de música (risos), pois vai “beber” a vários estilos, mas a nuance da música erudita está sempre lá. 
Seja como violoncelista, maestro ou até orquestrador, tenho um enorme prazer naquilo que faço, uma vez que, para mim, a música é um dos motores da arte e da cultura nacional, é também um forte impulsionador da economia e um gerador de emprego. Infelizmente, nos dias de hoje, este sentimento não é muito partilhado, mas procuro incuti-lo sobretudo nos meus alunos e nos seus pais, provando-lhes que a profissão de músico é um trabalho sério e árduo, que envolve muitas exigências e sacrifícios, mas também recompensas e reconhecimentos.

5. Que conselhos gostaria de deixar a todos os jovens músicos que querem prosseguir estudos e têm o sonho de se tornarem músicos profissionais?

São com certeza os mesmos conselhos que ouvem dos seus professores diariamente: trabalho, trabalho, trabalho e... trabalho! É inevitável. Para se fazer seja o que for, é preciso trabalhar e usar todas as nossas capacidades e competências. Procurando uma analogia muito clara para os mais novos: “até para se estar sentado em frente à TV/computador a jogar é necessário destreza, raciocínio e paciência para conseguir passar os vários níveis!”
Para ser-se músico profissional é necessário investir primeiro na educação, ou seja, investir em muitas horas de estudo e de aulas e muitos cursos de aperfeiçoamento artístico, workshops e masterclasses, até que dominem um instrumento de forma satisfatória. Também é necessário aprender a saber estar em palco (seja qual for a sua dimensão) e saber estar perante o público. 
Na nossa arte, tal como noutras, precisamos ter paciência, calma, organização e sermos metódicos em tudo o que estudamos, mas sobretudo pensar na “chama” que nos liga à música, que nos motiva e empurra para o nosso objetivo.
Como em tudo na vida, também ao longo do nosso percurso, é preciso uma boa dose de sorte, mas, para mim, a sorte surge do trabalho, por isso, é preciso trabalhar arduamente e insistentemente para conseguir participar no máximo de masterclasses nacionais e internacionais, participar em concursos, partilhar experiências nos estágios das orquestras juvenis, concorrer e participar nos mais variados festivais que existem pelo mundo. Só assim poderão surgir as oportunidades que nos podem levar a viver algo extraordinário.


Recorda-se que Carlos Tony Gomes estudou na Escola Profissional de Música de Viana do Castelo (EPMVC) com o professor Iminas Kucinskas (entre 1997 e 2003). Frequentou masterclasses com Márcio Carneiro, Pieter Wispelwey e Valentin Berlinsky, entre outros. Licenciou-se na Academia Nacional Superior de Orquestra e fez Mestrado na Universidade de Évora com os professores Paulo Gaio Lima (Violoncelo) e Paul Wakabayashi (Música de Câmara).
Apresenta-se regularmente com a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Orquestra Sinfónica Portuguesa. Tocou em algumas das mais prestigiadas salas como o Coliseu dos Recreios e o Teatro Nacional S. Carlos (Lisboa), a Casa da Música (Porto), Petit Palau (Barcelona), Barbican Center (Londres), Is Sanat (Istambul) e LG Arts Center (Seul), entre outras.
Concluiu com a máxima distinção o curso de Direção de Orquestra no Conservatório Rayonnement de Lille (França), sob a orientação do Maestro Jean Sébastien Béreau.
Tem vindo a colaborar com vários músicos nacionais e internacionais, destacando-se os músicos portugueses Rodrigo Leão e Dead Combo.
Atualmente leciona as disciplinas de Violoncelo e Orquestra no projeto de Ensino Integrado de Música na Casa Pia de Lisboa.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

À Conversa com Jacques Zoon



Durante os dias 16, 17 e 18 de fevereiro de 2015, na Escola Profissional de Música de Viana do Castelo, decorreram Cursos de Aperfeiçoamento Artístico (Masterclasses) dos seguintes instrumentos: Contrabaixo (António Augusto Aguiar), Flauta (Jacques Zoon), Guitarra (Pedro Rodrigues), Saxofone (Fernando Ramos), Viola-d’arco (Paul Wakabayashi), Violino (Zofia Kuberska-Woycicka e Pedro Rocha) e Violoncelo (Carlos Tony Gomes).

No final dos dias 17 e 18, os participantes assistiram a dois Concertos de Professores onde se ouviu o Capricho Op. 18 n. 2 de Henryk Wieniawsky, mas também obras de Franz Danzi, A. Pinho Vargas, Agustin Barrios, Jorge Peixinho, J. S. Bach e a estreia mundial da obra “Apneia” de D. Andrikopolous.


As alunas Ana Baganha (1CISP) e Bruna Curva (2CISP) tiveram a oportunidade de entrevistar o flautista Jacques Zoon, um dos professores convidados.




Quando começou a pensar seguir uma carreira musical como flautista profissional?

Penso que teria 11 ou 12 anos. Comecei a tocar flauta com 9 anos e sentia tanto prazer ao fazê-lo que cedo percebi que poderia seguir uma carreira musical. Foi até engraçado porque a minha professora queria que eu me tornasse flautista, mas eu não me decidia. Na altura, eu jogava futebol e ela não gostava disso. Houve então um momento em que ela me perguntou se eu queria ser músico ou jogador de futebol, e como eu gostava de a arreliar disse-lhe que queria ser futebolista. Mas uma semana depois, confessei-lhe que lhe tinha mentido e que na verdade queria ser flautista.
Depois dos 14 anos tudo começou a ser mais difícil porque eu já tinha a certeza que queria ser músico e os meus pais queriam que eu primeiro acabasse os meus estudos e tivesse bons resultados. Comecei o ensino secundário muito bem, mas cada ano que passava estava a piorar as notas e quando chegou o exame final passei com alguma dificuldade.

Qual considera ter sido o momento mais importante da sua carreira musical até à data?

Na verdade não sei. Para mim, o mais importante é sentir-me feliz com o que faço. Sempre tive sorte e sempre fui feliz na minha profissão e por isso não posso falar de um momento específico. Há momentos da carreira que podem parecer muito importantes para os outros, mas também podem ser uma ilusão. Há pessoas muito famosas, mas que na verdade são muito infelizes: pertencem a toda a gente e deixam de pertencer a elas próprias… O sucesso passa a ser um sofrimento, um fardo… eu não almejo esse tipo de carreira.



Que conselhos daria a um aluno que está agora a começar a sua carreira musical ou ambiciona uma?

Essa pergunta é muito difícil de responder. Não são os alunos que decidem, ou não, começar uma carreira musical, são as oportunidades que aparecem, ou não aparecem. Claro que se tem de trabalhar muito e ter a certeza de que temos algo especial para oferecer e que outras pessoas não podem fazê-lo.
A sorte pode ser um fator importante, temos de estar no lugar certo, na altura certa, mas se não acontecer não devemos ficar desiludidos. Devemos ter outras razões para continuar na música e continuar a tocar, independentemente do nosso caminho. Há tantos bons músicos e tão pouco trabalho, por isso, esta profissão pode trazer muita desilusão.
Se temos demasiadas expectativas, as carreiras podem tornar-se cheias de desilusões. Se algo que queremos muito não acontece pode ser muito constrangedor, por isso, temos de ter a certeza de que o que fazemos nos faz felizes.
Se gostarmos do que fazemos, mesmo que não alcancemos um grande sucesso na nossa carreira podemos nunca ser infelizes ou estar desapontados. Conheço músicos que tinham expectativas muito altas e porque não as alcançaram não voltaram a tocar. E eu penso, afinal, que significado tem a música para eles? Por isso, recomendo que só procure seguir uma carreira musical quem realmente ame a música e, assim, tudo o que conseguirem é fruto disso mesmo e não ao contrário.
Por outro lado, creio que é muito importante que se estude música a um nível muito elevado, mesmo que não profissionalmente. É importante que os músicos se apresentem ao nível mais alto, para que a arte evolua, para que seja mais conhecida e permaneça. Se houver muitos jovens talentosos, mas a quem não lhes é permitido o ensino da música ao nível mais elevado, não estaremos a deixar que a arte evolua.

Houve outros músicos ou maestros que foram uma fonte de inspiração para si?

Desde 1981, trabalhei muito regularmente com Claudio Abbado, primeiro em orquestras juvenis e depois na Orquestra de Câmara da Europa. Em 2003, comecei a tocar na Orquestra do Festival de Lucerne e na Orquestra Mozart com diferentes formações. Abbado sempre me convidou a voltar e eu amo a sua forma de fazer música. Ele era muito espiritual, especial, transcendente e inspirador.





Que tipo de repertório prefere tocar?

Quando era estudante adorava música Romântica, ainda gosto, acho que isso é normal, mas quando envelheci comecei a apreciar cada vez mais o compositor alemão Johann Sebastian Bach porque é necessário um grande rigor na sua execução, não se pode brincar ou fazer batota com a sua música. É muito importante estudar Bach. Johannes Brahms sempre dizia: “Estuda Bach. Lá encontrarás tudo”.
Mas gosto de tocar muitas outras coisas, não tenho preferências. Eu também toco flauta cónica que tem um som muito doce e a maior parte do repertório está escrito para ela.
Na Alemanha, a flauta com o sistema Boehm não foi verdadeiramente aceite até depois da Primeira Grande Guerra. O Concerto de Flauta do alemão Carl Reinecke foi escrito para um instrumento cónico e todos os compositores anteriores tinham uma ideia muito diferente de como a flauta deveria soar. Eu acho que aprender a tocar vários tipos de flautas (a flauta moderna e as flautas antigas) é um bom investimento, porque o som não é de todo o mesmo.
Anton Bernhard Furstenau, um compositor romântico e um flautista virtuoso, era contra a flauta de Boehm. Ele dizia que as coisas boas da antiga flauta se tinham perdido e em vez disso tínhamos força e equilíbrio, o que era positivo, mas muitas qualidades haviam desaparecido. Eu acho que há verdade nisso. Talvez se consiga construir um instrumento hibrido.

De que maneira a sua experiência enquanto professor influencia as suas apresentações como flautista?

Se ensinamos de uma certa maneira, se temos ideias sobre como o devemos fazer e tentamos que os nossos alunos melhorem dessa forma, temos a responsabilidade de também o honrarmos. No fundo, somos responsáveis por aquilo que dizemos e, por vezes, pode ser um pouco frustrante porque nem sempre consigo fazer o que digo (mas isso também é humano). Por vezes, nós temos um problema que estamos a tentar resolver e o facto de ensinarmos faz com que não desistamos de o solucionar. Lecionar faz-nos trabalhar mais.
Vivi com Claudio Abbado e outros músicos muitas experiências que me inspiraram e que influenciaram a forma como toco, e sinto o desejo de transmitir esses conhecimentos aos meus alunos. Claro que a técnica é muito importante, é importante tocar de forma correta e de forma fluída, mas não é tudo. Muitas coisas podem influenciar a nossa forma de tocar. Por vezes, a essência da música que é transmitida, as ideias musicais e a inspiração surgem de outras pessoas, de um filme que vemos, das nossas experiências de vida. Transmito aos meus alunos que “nunca devemos fechar a porta”.




Gostaria de deixar uma mensagem aos alunos da Escola Profissional de Música de Viana do Castelo?

É fantástico ver que há tantos jovens que se sentem motivados para fazer música e espero que a Escola continue o seu trabalho, porque a música é um alimento espiritual para o mundo. Mesmo que não tenham a carreira que gostariam de ter, mesmo que não encontrem um trabalho, não parem de tocar, porque o mundo precisa de músicos. Sem músicos inspiradores o mundo seria muito mais aborrecido.
Penso que temos de ser muito inventivos e encontrar formas de sermos úteis. Há quem esteja à espera que o façamos. Mesmo que seja a tocar na rua, sempre haverá quem pare e fique fascinado porque não sabia que tal beleza existia. E isto acontece a toda a hora. A magia da música pode transformar as pessoas. Quantos mais instrumentistas de um elevado nível musical existirem, especialmente músicos eruditos e não apenas de entretenimento, mais espirituais serão as partilhas. Há sempre algo mais por trás da música que é composta.





Recorda-se que Jacques Zoon nasceu em 1961 na Holanda e é um dos mais extraordinários flautistas da atualidade. Já se apresentou a solo em vários países da Europa, no Japão e nos Estados Unidos da América, sob a direção de maestros como Claudio Abbado, Leonard Bernstein e Bernard Haitink. Atuou como primeiro flautista na Concertgebouw (Amsterdão, Holanda), na Orquestra Mozart (Viena, Áustria), na Orquestra de Câmara da Europa, na Orquestra Filarmónica de Berlim e na Orquestra Sinfónica de Boston, onde foi eleito “músico do ano”.

Presentemente é primeiro flautista na reputada Orquestra do Festival de Lucerne, na Suíça, conhecida por convidar os melhores instrumentistas do mundo, e trabalha regularmente com os Solistas Barrocos de Berlim. Efetuou inúmeras gravações para a Deutsche Grammophon, a Philips e a Decca. Jacques Zoon leciona, desde 2002, no Conservatório de Música de Genebra (Suíça) e desde 2008, na Escola Superior de Música Rainha Sofia, em Madrid.



Vidas com Música - Olga Prats

      A propósito do concerto com a pianista Olga Prats e o contrabaixista Alejandro Erlich Oliva com o tema ARTE  E EMIGRAÇÃO, que se realizará a 7 de maio 2015, às 21h30 no Eventos Caffe, em Viana do Castelo, recorda-se a conversa da pianista com duas alunas da EPMVC, em 2011.





quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

"Abrir os olhos” para o ruído



No passado dia 28 de outubro de 2014, no âmbito da disciplina de Ciências Físicas e Naturais, a turma do 3º CBI recebeu na Escola a Engenheira Gracinda Barbosa do Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental de Viana do Castelo.


A atividade iniciou com uma pequena palestra e exploração de um diaporama sobre o conceito de som, de ruído, de poluição sonora, Escala de Nível Sonoro, funcionamento do sonómetro, autoridades competentes para as questões relacionadas com ruído, medidas adotadas para diminuição dos níveis de ruído na cidade e medidas para preservação da saúde do aparelho auditivo.

Mais elucidados sobre a problemática, a turma saiu da sala para dar início a uma atividade de sensibilização para o ruído. Assim, em grupos de dois, um dos alunos foi vendado e deixou-se guiar pelo colega que o levou pelo braço percorrendo ruas da cidade de Viana do Castelo. Pretendia-se desta forma apurar o sentido da audição e aumentar a sensibilidade para o mesmo. Pode desta forma constatar-se que as zonas de maior movimento, de mais trânsito, de maior circulação de peões e de restauração, são as que apresentam maior nível de ruído.

A poluição sonora é responsável por prejuízos na saúde humana, como perda de audição, dor de cabeça, cansaço. Este tipo de poluição pode prevenir-se facilmente uma vez que, eliminadas as fontes, desaparece. Apesar das diversas medidas que têm vindo a ser tomadas neste sentido, cabe ainda a cada um zelar pela saúde do seu aparelho auditivo.





Alunos do 3CBI, 2014/2015