domingo, 28 de setembro de 2014

Estágio APROARTE, uma semana inesquecível para qualquer jovem músico




  Durante uma semana, os alunos da EPMVC que participaram no XV estágio da Orquestra Sinfónica APROARTE desenvolveram inúmeras capacidades técnicas a nível musical, mas não só! A convivência com novos professores e maestros e com os alunos de outras escolas profissionais da área artística, também lhes permitiu desenvolver novos hábitos de estudo e diferentes pontos de vista muito importantes para quem gosta de música e de cultivar amizades.

Tanto o maestro alemão Ernst Schelle, como a solista espanhola Letícia Moreno, ajudaram os vários alunos a superarem as dificuldades inerentes à exigência do repertório escolhido e a interpretar as peças, partilhando os seus conhecimentos com todos e transformando um conjunto de músicos de vários cantos do país numa “orquestra família”.

Os novos músicos que, como nós, integraram pela primeira vez esta Orquestra foram muito bem recebidos e ajudados no entendimento do funcionamento do estágio.


       Letícia Moreno com os alunos da EPMVC Ana Baganha e Rodrigo Brito


  Em suma, tratou-se de uma semana totalmente enriquecedora e produtiva, muito útil para qualquer jovem músico em formação, sendo também absolutamente divertida e inesquecível!

Ana Baganha e Rodrigo Brito 1CISP/1CICT 
Setembro 2014
             
              Orquestra APROARTE


segunda-feira, 15 de setembro de 2014


  Concerto APROARTE dá o mote ao ContactAR-TE, Artes em diálogo da EPMVC


Com o concerto da Orquestra Sinfónica APROARTE, este domingo, no Europarque em Santa Maria da Feira, dá-se início à quarta edição do projeto ContactAR-TE – artes em diálogo da Escola Profissional de Música de Viana do Castelo (EPMVC).


Concerto Orquestra Sinfónia APROARTE, 14 setembro 2014 (imagem: Dina Fernandes) 

No programa do referido concerto, integrado no 15º Estágio Nacional da Orquestra APROARTE, que contou com cerca de duas dezenas de alunos da EPMVC, podem ler-se as seguintes palavras do maestro Ernst Schelle:
“Na história do homem, o desejo de viajar para DESCOBRIR novas terras, novas culturas, usos e costumes tem sido uma característica que permaneceu ao longo de milénios. (…) Mas donde surge esta vontade de descoberta por parte do ser humano?
Alguns procuravam terras mais férteis, outros exploravam para encontrar diamantes e ouro, e outros ainda foram movidos pela ‘fome de alimento espiritual’ que corresponde a novas formas de pensar, novas formas de arte que lidam com todas as dimensões da vida ‘interior’ do ser humano.”
Ensaio da Orquestra com o Maestro Ernst Schelle, setembro 2014 (imagem: Dina Fernandes 

Dvořák, diz Ernst Schelle, “era extremamente comprometido com o seu país e a decisão de partir para a América foi sofrida. Mas o desejo de CONHECER” sobrepôs-se a tudo.
Assim, a Sinfonia nº 9 op.95 “Do Novo Mundo” do compositor checo A. Dvořák (1841-1904) que hoje ouvimos, marca o início da exploração do primeiro tema do projeto ContactAR-TE, artes em diálogo deste ano letivo: A VIAGEM.


Espera-se que a “viagem” da nossa comunidade educativa no ano letivo 2014/2015, apesar do muito esforço que com certeza nos exigirá, nos desperte os sentidos e nos traga “inúmeros tesouros, novos recursos e novas inspirações”.
  Recorda-se que este projeto permite aos alunos da EPMVC, o contacto com expressões artísticas próximas da música, tais como a dança, a pintura, a escultura, a arquitetura, a literatura, o teatro e o cinema.


No ano letivo 2014/2015 os temas serão: “A Viagem”, “O Sonho” (porque nem sempre se viaja fisicamente) e “A Dança”.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Concurso de Textos EPMVC 2013/2014 - Curso Básico de Instrumento - textos premiados

Poema de Chocolate



Bem quente derretido,
Seu cheiro causa saliva.
A boca que transpira
E ainda não esteve envolvido.

Misturo o branco com o amargo,
Vou misturando os dois chocolates.
Ai que isso me faz um estrago!
Esse desejo chega a ser um disparate!

Uma calda que ali borbulha,
Está grosso e bem brilhante.
Só o cheiro… é uma tortura,
Se deixar devoro tudo num instante.

Essa calda de puro chocolate,
É uma louca e saborosa tentação.
Essa fragrância até tem perfume,
Chocolate é pura sedução.          
Beatriz Barros, 1º CBI, 1º prémio



O dia em que a Mãe - Natureza desapareceu



            Antes de serem criados Adão e Eva, os animais falavam. Eles eram letrados, mais do que os monges medievais, e andavam sobre duas patas. Nessa época, já não havia dinossauros. Havia uma ligeira diferença entre animais nobres e animais campestres. Os campestres eram como o povo na Idade Média e os nobres eram tratados como os nobres. Dividiam o seu território tal como no Apartheid, onde se destacou o grande Nelson Mandela, que, nesta história, será, obviamente, um animal.
            A classe social dos nobres continha os mais bonitos, importantes, ágeis e raros animais tais como: lebres, coelhos, aves raras, cães, gatos, veados, alces, flamingos, avestruzes e codornizes. Na classe oposta, os campestres, estavam os mais feios, sábios, pequenos e camuflados animais: tartarugas, burros, aranhas, vacas, touros, camaleões, porcos, ovelhas, galinhas e ursos.
            A Mãe-Natureza, filha de Deus, era responsável por todas as espécies. O pai tinha-lhe incumbido a tarefa de vigiar os animais, ouvi-los e cuidar deles. Deus vivia num castelo guardado por alces e touros, que, apesar de serem de classes diferentes, eram dos animais mais corajosos. Um dia, a Mãe-Natureza entrou apressada no Castelo.
            - Pai, estou farta destes animais. Quero ir embora e deixá-los.
Os guardas, ao ouvir isto, foram contar aos outros guardas que, por sua vez, contaram às populações.
            Antes de a Mãe-Natureza abandonar a zona onde estavam os animais, toda a população já sabia e entrou em guerra. Uns culpavam os nobres por serem arrogantes e não serem justos, outros achavam que os campestres é que tinham culpa por serem fracos e não oferecerem luta aos mais fortes. Aqui interveio o nosso herói, Alcides, a tartaruga mais velha que alguma vez existiu.
             Alcides tinha sido preso pelos nobres, antes de ter nascido a Mãe-Natureza, e foi libertado no dia do nascimento desta criança. Na prisão, aprendeu muito e, devido à falta de sol que desidrataria a sua pele, ele não envelheceu muito. Este herói estava muito velho e, com algumas frases sábias, cativou a população:
            - A culpa não é só de uma classe, é de todos nós que nada fazemos para mudar. É daqueles que controlam e que deixam ser controlados, dos que falam eternamente e dos que ouvem fartamente, dos que dizem que vão melhorar e dos que pioram, dos que julgam e dos julgados. A culpa é de todos. Por isso, todos juntos vamos trazer a Mãe-Natureza de volta.
            Mas de nada adiantou. Os animais começaram a barafustar e a achar aquelas ideias parvas. Era final do dia e, quando o sol se pôs, apareceu a Mãe-Natureza, que só tinha passado um dia de férias. Ao ver aquela barafunda toda, usou os poderes que o seu pai lhe tinha concedido, calou os animais e pô-los todos de quatro patas acabando de vez com aquilo. Quando pegou em Alcides, este já estava morto e correu para o castelo.
             No castelo, estava seu pai que, quando soube da notícia da morte da tartaruga heróica, pegou nela e lhe deu vida com todos os dons que a sua filha tinha tirado aos animais. A tartaruga reencarnou sobre a forma de humano, de nome Adão, mas sem memórias da sua vida como animal. Por isso, todos os homens são os antigos animais que perderam a memória e os seus poderes. Deste facto, surgiu algum ódio pelos animais aos homens e a, partir de então, algumas espécies começaram a atacar os humanos.

Eduardo Lima, 2º CBI, 2º prémio



                                                O Cinzento



Da janela do meu quarto, observo-me.
Estou como o dia
E como a chuva
que dança ao sabor do vento.

Danço ao paladar das minhas emoções,
Sem sabor.
Movimento-me como um boneco,
Desarticulado.

Olho em redor do meu quarto,
As pinturas de parede contrastam com o dia
Cores lilases confrontam
Um estado de melancolia.
Dia cinzento.




                Maria João Ribeiro, 1ºCBI, Menção Honrosa
   

Concurso de Textos EPMVC 2013/2014 - Cursos de Instrumentista - textos premiados


      Amor Eterno


Estava escuro. O sol ainda não nascera. Ao som das ondas, esperava a poveirinha pelo amado, que prometera chegar ao nascer do sol.
Encontrava-se sentada na areia gelada, trajava uma camisa branca e um colete vermelho, usava uma saia de branqueta e, à vista, estava o saiote de pano vermelho e com o orgulho mostrava “o listrão” (o símbolo do amor), que todo o pescador que “arribasse” à Galiza trazia para a sua amada. Quando o barco chegava à Póvoa de Varzim, o namorado gritava bem alto, com o braço no ar e com o “listrão” bem à vista. A amada corria para ele, arregaçava a saia e, na presença de toda a comunidade, apertava o “listrão” galego, sinal que o namoro tinha futuro.
De terço na mão rezava para que chegasse “bibinho da silva” e recordava todos os momentos vividos com o seu amado, em especial, o da primeira faina depois de assumir o “pregão”. Ele levou um lenço branco da sua poveirinha, quando voltou da pesca, ao entrar na barra colocou uma vara na proa e dependurou o lenço da sua amada, para que todas as pessoas soubessem que estava prestes a realizar o seu sonho de amor.
Ao nascer o sol, como prometera, estava o barco a entrar na barra e ele berrou “ Alá arriba” e todas as pessoas corriam a ajudar. O seu amado pescador empurrava pelas costas da embarcação, com a ajuda dos outros homens, para que o barco subisse, e as poveirinhas substituíam os troncos por onde a embarcação deslizava e o mestre, seu esposo, berrava “Alá arriba” que significa força para cima.
Do barco “Amor eterno”, agora em “terra firme” e a salvo, saiu o pescador que foi de encontro a quem o esperava e beijou-a sorrindo, pois sobrevivera a mais uma noite no mar, encheu o cabaz de peixe e lá vai a sua poveirinha de cabaz à cabeça, descalça, com o xaile enrolado à cinta, que marcava o ritmo das ancas. Na sua marcha apressada, apregoava a “sardinha bibinha” a sua voz cristalina entoava pelas ruas da Póvoa.
A poveirinha é uma mulher desinibida que desempenha com êxito as funções que noutra sociedade cabem ao homem, como o marido passa muitas horas no mar, fica impossibilitado de resolver alguns problemas familiares e, então, a esposa assume o papel de cabeça de casal.
No início da tarde, fazia a “obrigação do marido”, ajudando-o a levar as redes para casa, consertá-las e tingi-las. 
Anoitecera na Póvoa, a poveirinha fora dormir cedo ao lado do seu amado, pois ele teria de partir dentro de poucas horas.
Estava uma “morrinha” e o mestre observou o tempo, deu ordem para partirem em direção à lua cheia que iluminava a noite e o rumo da embarcação.
Ao longo da noite, o tempo piorava. O vento enfurecido empurrava a chuva, assobiava como um louco, as ondas devoravam as rochas da praia e a trovoada enchia de pânico a poveirinha que acordava em sobressalto. Aflita, pegou nas velas e correu para a “Igreja da Lapa” que em tempos de incertezas ou insegurança, tinha a porta encostada de noite ou dia, para que as pessoas pudessem rezar pelos seus familiares e colocar velas acesas aos santos da sua devoção, implorando a proteção dos pescadores. Ajoelhada em frente da Senhora da Assunção, de olhos marejados de lágrimas, pedia à grande madrinha e protetora dos pescadores pela vida do seu homem.
Ao amanhecer, lá estava ela sentada na areia esperando o “Amor eterno” que traria o seu esposo e os outros pescadores. De terço na mão, rezou durante horas e horas, esperou, esperou…. Por quem nunca mais voltou.
Esta é a história de um casal de pescadores que veem no mar um companheiro de trabalho, um fiel amigo onde depositam a esperança de uma vida melhor e, quando menos pensam, este destrói um grande amor.
O pescador é um homem corajoso que enfrenta o mar com garra e uma força inigualável, lutando para sobreviver e sustentar a sua família. Sempre se afirmou que “por detrás de um grande homem está uma grande mulher”, não devemos esquecer daquelas que, com o seu suor e lágrimas, contribuíram arduamente nesta saga da pesca. Trabalho, dedicação, sofrimento e eis que a alma singela de uma mulher contribui para a nobreza e reconhecimento do trabalho do homem.
Ser pescador é ser um orgulho, é ser um herói.

                                                                                   Carlos Torre, 2º CICT, 1º prémio


Entraste em mim


Entraste em mim
E fomos vida um do outro.

Tudo porque a magia do teu olhar
Entrou pelos meus olhos
Até ao fundo do meu coração.

Tudo porque o som da tua voz
Encheu os meus ouvidos
E preencheu todo o meu corpo.

Tudo porque o teu perfume
Invadiu o meu nariz
E fazia-me sorrir, pois sentia-te por perto.

Nada, apenas porque perdi o retrato que me deste
Se soubesses como ainda conheço cada pedacinho de teu rosto,
Hoje não teríamos de dizer nada!

Hoje, nada. As coisas que fazias
Eram rudes demais para mim
E meu amor era infeliz.

Mas não esqueci nada
Porque tu entraste em mim e jamais saíste.

          
                                                                                   André Rocha, 2º CISP, 2º prémio




Não me orgulho de ser assim. Este modo de viver torna a minha vida numa paleta de cores que a vida não tem.
Corroem-me pensamentos profundos que não fazem sentido, que me fazem parar no tempo.
Consomem-me mentiras do passado, receios do futuro, revolta do presente.
Perturba-me ser mais um, um mero ser humano, que se alimenta de sonhos, de esperança, que não fazem sentido.
Recordo-me de ter alguém a dizer-me para ter cuidado com a realidade, para acordar a tempo, pois quanto mais demorarem os sonhos a abandonarem a minha alma, maior será o abismo e o buraco onde cairei será cada vez mais fundo.
Infelizmente, conselhos como esses vieram tarde demais e, neste momento, não é possível sair do buraco obscuro a que chamo vida.
Dentro de mim há uma imensa mágoa por ser quem sou, há dor, vazio, desilusão em todos aqueles que me ajudaram, mesmo sabendo que aquele não era o caminho.
Estou insípida de ainda haver um mundo desconhecido dentro de mim.
Hoje percebo que sorrisos são disfarces daqueles que ainda não abriram os olhos e que ainda nem sabem o que são, nem sabem de que são os sorrisos, do que são feitos. Posso afirmar que são feitos de falsas esperanças, de uma falsa realidade. Esses mesmos sorrisos que ainda vivem na esperança e expectativa de uma mudança na sociedade.
A atual sociedade não quer saber dos problemas dos outros, simplesmente quer ser feliz, individualmente, e a isto chamo pura realidade.
Já pensei demasiado nos outros, já mantive confiança a mais nos outros. A esses demostro a minha sincera gratidão e, neste momento, um pedido de desculpas. Este pedido é, simplesmente, porque vou abandonar todos aqueles que já me fizeram bem mal.
Vou seguir em frente na indefinível esperança de um dia mais tarde ser feliz, com as minhas próprias decisões. Se com auxílio não fui capaz, na solidão tentarei.
Não esperar pela situação dos outros. Não esperar pela definição da minha vida dada por parte dos outros.
Até para desistir é necessário ter coragem, e demorei algum tempo para conseguir ser egoísta suficiente para perceber o mundo em que vivemos.
Viver assim tem sido uma aflição, tem sido rude.
Se, neste momento, alguém me quiser seguir, se alguém gostar de mim assim, aí perceberei o que andei a perder, tempo e tempo infinitos.
Mas, no final, limitamo-nos a ser humanos. A incerteza do amanhã persistirá sempre. A incerteza da decisão tomada persistirá sempre. 
Buscar caminho na incerteza é o maior desafio, pois as vicissitudes são imensas e não há certezas, só incertezas. Mas é a isto que se chama viver. A vida é uma meada que se enrola, desenrola, e volta  enrolar... Parece que estamos só a enrolar, mas estamos a construir um novelo.


                                                               Joana Lima, 1º CISP, Menção Honrosa


A Idade de Ser Feliz

Existe somente uma idade para ser feliz,
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.

Uma só idade para nos encantarmos com a vida
 e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que podermos criar
e recriar a vida,
a nossa própria imagem e semelhança
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e entregar-se a todos os amores
sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem
em que todo o desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda disposição
de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO,
e quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz na nossa vida
chama-se PRESENTE
e tem a duração do instante que passa.


Hilton Costa, 2º CICT, Menção Honrosa


O Enigma

  Quando se arruma o sótão encontra-se de tudo! Fotografias antigas, brinquedos perdidos... Enfim, há de tudo! Mas desta vez foi diferente... Não encontrei brinquedos nem fotos, mas sim um caixa... Uma caixinha pequenina, cheia de pó… Mas aquilo que nela me chamou mais a atenção foi o facto de estar trancada!
Desci as escadas num ápice, até que me deparei com o meu padrasto. Este é um homem frio, distante e não é de grandes falas, enquanto que a minha mãe... Bem, a minha mãe era uma mulher afável, meiga e muito doce. Lembro-me pouco dela. Apenas restam umas memórias vagas, pois ela falecera num acidente de aviação e foi o meu padrasto que ficou, desde então, com a minha guarda.
Mal ele viu que eu encontrei aquela misteriosa caixa gritou comigo. Disse para eu nunca mais ir à sua procura e até mesmo para não voltar a falar sobre o assunto... Nem uma única palavra!
Óbvio que não iria desistir, o que poderia estar dentro daquele pequeno cofre? Que segredo, que tesouro escondido?
Nessa noite mal dormi, só pensava no que lá poderia estar, vinha-me tudo à cabeça! Não aguentei mais! Aproveitei a saída do meu padrasto para procurar a caixa. Revirei a casa toda e nada! Fui ao quarto dele e nada! Até procurei na casa de banho, mas sem sucesso. Aquela maldita não aparecia, por mais que a procurasse. A única opção era enfrentar a pessoa a quem querem que eu chame "pai", perguntar-lhe o porquê de não poder saber o enigma que aquele objeto escondia. Estava confiante que o ia fazer, mas, chegou a hora, e nada, faltou-me coragem!
Lembrei-me então da minha avó materna, talvez ela me pudesse ajudar ou desvendar algum possível mistério. Eu suspeitava que aquela pequena caixa fosse da minha mãe, pois era bastante feminina. Falei com ela e mostrou-se muito atrapalhada, não sabia o que dizer... Apenas me disse que não devia insistir em abri-la para o meu próprio bem! Bem, ao ouvir isto comecei a ficar preocupado. Como é que uma caixinha me poderia causar mal?
Falei também com a minha tia e perguntei-lhe se aquilo era da minha mãe. Ela só me respondeu para esquecer essa caixa, para fingir que nunca a tinha visto, também para meu próprio bem.
 A coisa começava a ficar séria, tanta gente a dizer para esquecer, para não me aproximar. Óbvio que um miúdo como eu não ia desistir! Tentei recordar-me onde escondia os meus segredos, as coisas que eu encontrava e não queria mostrar a ninguém! E cheguei a uma conclusão. Como não me tinha lembrado antes? Quando era muito pequenino eu escondia tudo no jardim, dentro da casota do meu cão. Pensei nunca mais lá voltar, pois a morte do meu melhor amigo foi um choque. Se calhar foi por isso que o meu padrasto escondeu lá a caixa, pensei.
Corri até a casota e parei, pensei que tinha de ser! Tudo dependia de mim, coragem e força era a única coisa que eu precisava. Entrei. Comecei a lembrar-me das brincadeiras que tivera com o meu fiel amigo, de todos os momentos que passara com ele. Continuei em frente e avistei a caixa um pouco coberta de terra. Só falta abri-la. Mas como?
Fui para o meu quarto e escondi aquele pequeno tesouro. Tentava desvendar aquele problema. Entretanto, o meu padrasto chegou e reparei num pormenor que até aquele dia me tinha passado despercebido: no seu porta-chaves havia uma pequenina chave. Seria a tal? Seria aquela que iria acabar com este mistério todo?
Anoiteceu. Já todos dormiam, menos eu, tinha de acabar com isto! Fui até á porta, peguei no porta-chaves e subi as escadas em pezinhos de lã. Estava quase, meti a chave na ranhura e respirei fundo e... Abriu! O pesadelo acabou. Dentro daquela pequena caixa encontrei um livro, um livro muito velho. Abri-o. Tinha uma foto de um bebé e de uma mulher. Não sabia de quem se tratava. Mas só podia ser: eu e a minha mãe! Era o diário dela. Era nele que ela depositava todos os sonhos e planos que tinha para nós. Li o livro com muita curiosidade, os seus projetos para nós os dois, os seus objetivos de vida, os seus sonhos.
Após ter concluído a leitura pensei: "porque será ninguém queria que encontrasse o diário?" E rapidamente cheguei a uma conclusão! Ninguém queria ferir os meus sentimentos. Não queriam que revivesse o passado, queriam que eu esquecesse e seguisse em frente, mas, acima de tudo, eles não queriam desenterrar as memórias, as lembranças que tanta dor lhes causara.
No final, o diário tinha uma nota da minha mãe para mim, que dizia: "filho se um dia chegares a ler isto é sinal que o meu corpo já não está presente, mas a minha alma estará sempre junto de ti nos bons e nos maus momentos. Só quero que saibas que fiz tudo para que fosses feliz e que também eu fui muito feliz ao pé de ti e do teu pai. Tenho um amor eterno por ti. A tua mãe!”
Desmanchei-me em lágrimas, uma simples frase fez-me sentir que afinal não estava só. De repente, senti uma mão a tocar-me no ombro. Era o meu padrasto. Olhou-me nos olhos de uma forma como eu nunca tinha visto e disse que estava tudo bem. Foi nesse momento que senti que afinal não era um homem frio, aliás era um homem muito sentimental, só não o sabia demonstrar. Levantei-me e corri para os seus braços e prenunciei a palavra que nunca pensei dizer. Chamei-lhe simplesmente PAI.

                                                              Isa Tavares, 2º CISP, Menção Honrosa

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Textos vencedores Concurso “Histórias na Praça” 2014 - Ao NORTE




Segredo de Salazar


         01h53 - Praça da República, Viana do Castelo. Um homem de capa negra esconde algo misterioso dentro do chafariz. Uma rapariga de 16 anos vê-o e este corre entre as sombras da noite, na escuridão profunda de uma viela que dá diretamente à avenida. A rapariga entra em pânico, com o medo à flor da pele. Repara que não es ali mais ninguém a não ser ela e os habitantes das casas que dormiam profundamente.
Algumas horas mais tarde, es todo um aparato policial montado na praça da república. É verificado pelo INEM o estado de saúde da testemunha. Pouco depois chega um detetive da PJ, que, de relance, observa todo aquele quadro, chama-se João Azevedo, um detetive famoso, pois era conhecido por resolver todos os casos que investigava, tendo sido encarregue, de imediato, de investigar este. Vê a testemunha e decide avançar para ela, para a interrogar:
-Como se chama?
-Inês, Inês Quesado.
-Pode relatar o sucedido, o que testemunhou hoje de madrugada?
-Estava bastante escuro, apenas estavam os candeeiros das ruas acesos. Eu vi uma sombra perto do café “Caravela”. Pela estrutura física, pareceu-me ser um homem. Ele estava a levar um objeto que me pareceu ser um baú. Quando ele reparou em mim, atirou a caixa para o chafariz e desatou a correr, mas a forma como ele corria... parecia que estava com a perna ferida e, se bem me lembro, quando ele ia a correr, deixava sangue por onde passava. De certeza que era dele, mas esse é o vosso trabalho.
O detetive foi investigar o local onde o sujeito, segundo a testemunha, pôs uma caixa em forma de baú. Tirou o seu casaco de cabedal e arregaçou a manga da camisa. Pôs a mão na água do chafariz e tirou um pequeno baú metálico, enferrujado pelo tempo. O detetive abriu a caixa e viu uma bomba-relógio. Imediatamente, mandou parar tudo e pediu ajuda aos agentes da polícia para evacuar quem estava na praça. Enquanto isto, reparou que havia bastante sangue, que, num rasto fino, partia do chafariz em direção aos Paços do Concelho. João teve sangue frio, recolheu uma amostra e, juntamente com a tampa da caixa, enviou para o laboratório para serem analisados.
De repente, recebe uma chamada de um número anónimo:
-Você cometeu um erro muito grande, detetive.
-Quem fala? O que está a dizer?
-Essa bomba tem um segredo que nenhum técnico do mundo é capaz de desvendar. Não pode e nem quero que seja. O mundo depende do meu ato.
-Onde se encontra? Exijo que se entregue. Não posso deixar que um louco como o senhor ponha em causa vidas e o património.
-Nunca me encontrará, detetive. Nada do que fizer servirá para resolver esta situação. Adeus.
O telefone desliga-se e o detetive sente-se amargurado. Não sabe o que fazer ou como fazer para impedir o desastre. Anda em círculos, em volta ao chafariz, aguardando que a equipa de desminagem chegue para desativar a bomba. Está junto ao edifício dos Paços do Concelho, quando o seu telefone toca novamente. Vê pelo número que é do laboratório da perícia da judiciária:
-Então, descobriram alguma coisa?
-Sim detetive, uma coisa muito importante e muito estranha. Acredita na vida eterna?
-Não! Porquê?
-Após termos analisado a caixa, conseguimos identificar uma impressão digital. Adivinhe de quem.
-Se eu tivesse poderes para adivinhar era vidente e não detetive.
-Pronto, tudo bem, não se ofenda. É que, tal como lhe estava a dizer, a impressão digital é de alguém que supostamente já não está entre nós.
-Quem? Desembuche, homem!
-A impressão digital é do antigo ditador Oliveira Salazar.
-O quê? Não é possível!
-Sim, e as coisas ainda ficam mais estranhas… é que pela análise do ADN do sangue do suspeito, este tem um grau de parentesco com Salazar.
-Parentesco?
-Sim, para ser mais preciso, estamos a falar de um filho.
-O quê? Mas isso é impossível! Salazar nunca casou nem teve filhos! É muito estranho.
O detetive, depois de receber esta notícia chocante, apercebe-se de uma luz azulada vinda do edifício dos Paços do Concelho. Era pequena, mas o suficientemente forte para se perceber que estava em movimento no interior escuro do edifício. Decide investigar e repara que numa das portas laterais, estão caídas algumas gotas de sangue. Com os dedos, toca-lhes e sente o seu calor. É sangue ainda fresco – o suspeito deve estar, então, no interior! De pistola em punho, entra de rompante no edifício e dá de caras com um sujeito de óculos escuros, sentado à beira de dois gigantones. Antes que consiga dizer alguma coisa, o homem dirige-se para o detetive:
-Olá detetive. Estava aqui, mas conseguia ouvi-lo a falar sobre algo acerca de Salazar. Acredita em fantasmas?
-Quem és tu?
-Eu sou Ricardo Salazar, filho legítimo de António Oliveira Salazar, ditador de Portugal durante 40 anos.
-Qual é a tua história?
-Quando o meu pai chegou ao poder, foi passar uns dias à sua terra natal e conheceu a minha mãe. Foi apenas uma noite, mas o suficiente para mudar a sua vida para sempre. Uns meses mais tarde, recebeu uma chamada da minha mãe a dizer que eu ia nascer. Ele não quis saber de mim e mandou prendê-la no Tarrafal, em Cabo Verde, sendo acusada de terrorista e comunista. Acabei por nascer por lá e, pouco tempo depois, a minha mãe faleceu. O seu segredo ficou muito bem guardado e não foi enterrado com ela, pois, antes de morrer, ela contou tudo à família que me acolheu, mas que nunca me contaram nada a mim, com medo de serem também presos. Mas um dia, também essa família sofreu nas mãos da PIDE e a dona Eneida, que me criou, contou-me tudo, antes de ser levada pela polícia. Foi a última vez que a vi e, desde então, eu queria-me vingar. E tive o meu momento. Consegui trabalhar como empregado na casa do meu pai e um dia, sendo ele já velho, enquanto se sentava, acabou por cair. Cair… toda a gente pensa que a queda da cadeira foi acidente, mas fui eu que desapertei um parafuso.
O homem solta uma gargalhada, interrompida pela tosse, enquanto cospe sangue.
-Tu és louco! Estás detido, mas, antes disso, diz-me, porque colocaste uma bomba na praça da República?
-Porque o meu pai, mandou esconder neste sítio, debaixo no solo, um segredo que faria destruir o mundo! Uma coisa que foi descoberta na selva da Guiné, um vírus tão mortal que se espalharia em segundos pelo planeta. Eu soube disto, pois quando ele morreu, fugi e trouxe comigo alguns dos seus objetos. Não liguei muito até há alguns meses e, enquanto lia o seu diário, descobri o que ele tinha feito e, ainda por cima, percebi que a caixa do vírus estava programada para se ativar automaticamente. Eu já não tenho muito tempo, estou a morrer. Deixe-me cumprir o meu destino e salvar o planeta, detetive!
-Não seja louco, se de facto o que diz é verdade, deixe isso com os especialistas da polícia.
-Não, não há tempo. Quando forem precisamente 9 horas da manhã, a luz, ao atingir o relógio de sol da esquina da misericórdia, irá ativar a caixa do vírus e a única hipótese é destruí-la com uma explosão muito forte. Por isso, armei a bomba e ela só pode ser desativada com uma palavra específica.
-Diz imediatamente a palavra e eu prometo que és levado para o hospital, para seres tratado.
-Ambos sabemos que já não tenho fuga possível.
-Por favor, eu faço os possíveis, mas diz a palavra!
-Vou confiar em si. A palavra é “Mafalda”.
-Boa! Tomou a decisão certa. Só uma pergunta. Como é que você sabia que era “Mafalda”?
-Porque esse era o nome da minha mãe.
O detetive algemou Ricardo, mas ambos esperaram que os especialistas da polícia chegassem para desarmar a bomba. Trouxeram ainda uma grua, içaram o chafariz, escavaram e, de facto, encontram uma caixa forte. Foi levada para uma laboratório e incinerada.
Ricardo foi levado para o hospital. Embora preso, sentia-se feliz. Tinha cumprido o seu objetivo. Tudo acabou bem e a Praça da República, para além de ter várias histórias, por ter testemunhado um acontecimento importante que envolve coragem, ficou ainda com mais valor. Agora, muitos turistas vêm aqui, para ver de perto o chafariz, que passou a ser também o túmulo do vírus mutante que podia ter destruído o mundo.



João Carlos Azevedo, Violoncelo,  CBI





Uma Cidade de Paixões



Parecia uma manhã normal para os vianenses. Estava um nevoeiro pouco habitual, de facto, contudo, o rio não ultrapassara as margens nem o mar invadira a areia. A cidade acordara calma e na esperança de ventos de mudança.   
Estava sentada, pintava com tinta-da-china memórias de um passado, onde o céu era azul e o sol raiava, a praça estava cheia de pessoas que viajavam no tempo, observando monumentos, sentia-se o cheiro das bolas quentinhas que do Natário saíam e que eram rapidamente engolidas, deixando o sabor a canela na boca das crianças que brincavam no Caramuru.   
Mas, naquele dia, a praça estava mais triste do que nunca, só estava lá ela, não se sentia o cheiro a canela e a fila à porta do Manuel Natário era inexistente. Soava o eco dos passos, numa marcha revolucionária cada vez mais próxima. Ariana arrumava apressadamente as tintas, os pincéis e as telas inacabadas, que, naquele dia, de inspiração pintara.
Por entre a multidão, Tiago transportava o seu melhor amigo, que os manifestantes insistiam em insultar:
- Chega para aí o fogão!
-Nunca vi transportar as árvores de natal assim…
  Ignorar era a melhor solução, os vianenses não conhecem o contrabaixo, ele já sabia desde que estudou na EPMVC. Arrastado pela multidão, não se identificava com a mesma, nem sabia o motivo. Simplesmente, viera dar um recital.
Ela bem tentara escapar, mas fora engolida pelo aglomerado de pessoas que berravam por uma vida melhor. Sentia-se perdida, estava em pânico, as tintas que trazia nas mãos já corriam pelo chão, não tinha braços para tantas telas e questionava-se, por entre os encontrões, quando se libertaria da confusão da praça.
Começou a correr ou, pelo menos, tentou, até que chocou com Tiago. Era impossível não o reconhecer, sabia quem ele era. Nunca o esquecera.
Conheceram-se naquela praça, numa tarde de setembro que, ainda abençoada pelo sol, estava quente.
Lembrava-se de o ver passar, de contrabaixo às costas, e sentar-se no mesmo banco de jardim. Conheceram-se e o amor surgiu naturalmente. As conversas intermináveis cheias de sorrisos, gargalhadas e uma felicidade de dois jovens profundamente apaixonados. Corriam livres pela praça, partilhavam uma bola do Natário, passeavam pelo areal aquecido pelo sol de inverno, viajaram por entre as gotas da chuva e recordaria para sempre a promessa feita à senhora da Agonia no barco de seu pai.
Rui era, sem dúvida, um aluno exemplar e prometia uma carreira musical brilhante. Tinha recebido um convite para estudar no estrangeiro e não teve coragem para contar à sua amada.
No último dia de setembro, dia em que faziam três anos de namoro, ele partiu.
Durante um mês, ela vagueou pela cidade à procura dele: perguntou aos amigos, pediu informações e, na escola, descobriu que tinha partido, pensando ela, sem deixar mensagens.
De lágrimas a cair pelo rosto, sentou-se num banco de jardim e com raiva começou a destruir uma por uma, todas as telas que tinha pintado, enquanto namorava com ele. Até que reparou que, por detrás da tela que retratava o primeiro encontro deles, tinha uma carta.
Leu, releu-a e voltou a ler. Tiago pedia desculpa por não ter coragem para se despedir, pois acreditava que um amor como o deles não morreria dessa forma.
Ela sentia que não era o fim e todos os dias esperava pelo seu amado naquele banco, pintando os momentos inesquecíveis vividos com ele. Em cada quadro cravava uma memória, um sentimento, uma paixão vivida pelos dois e pintada a óleo. Quer o céu chorasse quer fizesse sol e sorrisse, estava ela à espera que o destino lhe desse uma segunda oportunidade.
Passada uma dezena de anos estavam os dois, um à frente do outro. Olhou-o nos olhos e sentiu que era o seu momento. Beijaram-se e o chapéu que cobria a igreja de Santa Luzia levantou-se e o sol apareceu.
Como este amor, existiram muitos que nasceram nesta cidade e entregaram as suas juras de amor à senhora da Agonia. Se fecharmos os olhos podemos ainda ouvi-las, esta magia prende-nos a esta cidade e ficamos com ela no coração, tendo vontade de ficar para sempre, pois “quem gosta vem, quem ama fica”.   
 

  Carlos Alberto Rodrigues da Torre, contrabaixo, 2ºCICT